Inspirada em As
Mil e Uma Noites, montagem terá oito apresentações para estudantes no Jardins
Mangueiral, acompanhadas de palestras e debates sobre relações de gênero
Uma história contada há mais de
mil anos pode ajudar a compreender questões que ainda atravessam as relações
afetivas na atualidade. É a partir dessa perspectiva que o espetáculo A
Tecelã das Noites realiza uma temporada de oito apresentações para
estudantes do Distrito Federal, de 3 a 6 de novembro, no Centro Educacional
Jardins Mangueiral. Inspirada na narrativa central da obra As Mil e Uma
Noites, a montagem utiliza o teatro, a música ao vivo e o universo
fantástico para estimular reflexões sobre o feminicídio e as diferentes formas
de violência contra as mulheres.
A programação será acompanhada de
um programa educativo que inclui material didático impresso para os estudantes,
oito palestras de mediação antes das sessões e oito debates entre a equipe
artística e o público após as apresentações. A iniciativa conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura
(FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal e
busca criar oportunidades para que adolescentes e jovens discutam as relações
de gênero e reconheçam como dinâmicas de poder e comportamentos abusivos podem
se manifestar no cotidiano.
Dirigido e protagonizado por
Sulian Vieira, que assume a função de atriz e narradora, o espetáculo também
conta com César Lignelli, responsável pela direção, atuação e música executada
ao vivo. A montagem aposta em uma narrativa que combina humor, situações
absurdas, fantasia e reviravoltas, criando uma experiência artística que
convida o público a refletir sobre questões sociais sem abrir mão do
envolvimento e da surpresa.
Narrativa milenar para
discutir questões atuais
Em As Mil e Uma Noites,
Shárrazad decide se casar com o rei Sharriar, que, após descobrir a traição da
esposa, passa a desposar uma mulher diferente a cada noite e ordenar sua
execução ao amanhecer. Para interromper a sequência de mortes, ela começa a
contar histórias ao soberano, interrompendo cada narrativa no momento decisivo
e despertando sua curiosidade para a noite seguinte. Com inteligência e
criatividade, Shárrazad prolonga a própria vida e busca transformar a conduta
do rei.
Para Sulian Vieira, a escolha
dessa história está relacionada à possibilidade de observar as estruturas
sociais a partir de uma distância temporal e geográfica. “Surgiu da necessidade
de propor formas de desconstruir os machismos em nossas sociedades”, explica a
artista, ao falar sobre a criação do espetáculo e a decisão de levá-lo às
escolas.
A obra As Mil e Uma Noites
reúne narrativas ligadas às tradições orais da Índia, da China, da Pérsia e da
Arábia, difundidas, entre outros caminhos, pelas Rotas da Seda. Ao recuperar
esse repertório, a montagem estabelece uma ponte entre diferentes culturas e
épocas, propondo uma reflexão sobre a permanência das relações de poder
abusivas entre homens e mulheres.
“Talvez porque as relações de
poder abusivas de homens em relação a mulheres atravessem tempos, espaços e
culturas”, observa Sulian. Para ela, reconhecer essa continuidade pode ajudar o
público a compreender que a violência de gênero não é uma questão inevitável ou
exclusivamente individual, mas também está relacionada a construções sociais
que podem ser questionadas e transformadas.
Teatro como espaço de escuta e
reflexão
A proposta de levar o espetáculo
ao ambiente escolar considera também a dificuldade de abordar a violência
diretamente, sobretudo entre adolescentes e jovens. Medo, vergonha e outras
emoções podem dificultar conversas sobre experiências pessoais e relacionamentos.
Nesse contexto, a ficção oferece uma referência compartilhada para que o
público examine situações de violência sem precisar partir, necessariamente, de
relatos individuais.
Na montagem, as histórias
contadas por Shárrazad funcionam como espelhos capazes de revelar a tirania do
próprio rei. Personagens que inicialmente parecem distantes de sua realidade
passam a evidenciar diferentes formas de exercer, sofrer ou reproduzir relações
de poder. A estratégia permite que a plateia observe essas dinâmicas e
estabeleça conexões com o presente.
“Entendemos que o conto viabilize
uma situação a partir da qual possamos falar de violência com segurança e nos
referenciar, enquanto grupo, nas situações narradas”, afirma a diretora.
As palestras de mediação
educativa e os debates realizados após as sessões ampliam essa proposta,
criando momentos de diálogo entre os estudantes e a equipe artística. A
expectativa é que a experiência ultrapasse o tempo de apresentação e estimule
perguntas sobre comportamentos, afetos e relações de gênero.
A encenação também busca
equilibrar o peso do tema com a dimensão lúdica das narrativas. A música ao
vivo, composta e executada por César Lignelli, integra a construção dramática e
cria atmosferas que transitam entre tensão, leveza, festividade e humor. Já a
atuação de Sulian Vieira explora diferentes vozes e perspectivas, conduzindo o
público por histórias que se desdobram umas dentro das outras.
“Ao longo do tempo, elas
transformam-se em espelhos das ações de Sharriar”, explica Sulian sobre as
narrativas de Shárrazad. A diretora espera que o público se divirta e se
surpreenda com o absurdo e as reviravoltas das histórias, levando consigo a
curiosidade necessária para refletir sobre a presença das violências nas
relações cotidianas.
A Tecelã das Noites
contará ainda com uma sessão com interpretação em Libras, ampliando os recursos
de acessibilidade oferecidos aos estudantes.
SERVIÇO
Espetáculo: A Tecelã das Noites — temporada para estudantes
Data: 3 a 6 de novembro de 2026
Local: Centro Educacional Jardins Mangueiral
Endereço: Praça de Atividades 2, lote 6, Jardins Mangueiral, Distrito Federal.
Horários: duas sessões diárias, às 13h30 e às 16h15.
Não recomendado para menores de 14 anos.
Programação:
3 de novembro (terça-feira): 13h30 e 16h15.
4 de novembro (quarta-feira): 13h30 e 16h15 — sessão das 16h15 com
interpretação em Libras.
5 de novembro (quinta-feira): 13h30 e 16h15.
6 de novembro (sexta-feira): 13h30 e 16h15.
Atividades educativas: material didático impresso para os estudantes, oito
palestras de mediação educativa antes das apresentações e oito debates com a
equipe artística após as sessões
































